O Gogó chegou

26 de Julho de 2019



Amanda Paiva* e Caio Gomes*

            Era apenas o terceiro fim de semana da Taça das Favelas do Rio de Janeiro de 2019, no domingo, 31 de Março, entram no Campo do Realengo os times de Parque São Vicente e Gogó da Ema, pelo Grupo 2 do torneio masculino. O clássico de Belford Roxo é de extrema importância para as duas equipes. O Parque São Vicente precisa da vitória para continuar na luta pela classificação, já que no primeiro jogo do grupo empatou por 1 a 1 com o Complexo do Paraíso. Já o Gogó da Ema entra em campo para o seu primeiro jogo na história da Taça das Favelas. Meses antes, cerca de 400 jovens do Complexo do Gogó da Ema participaram de uma grande peneira que selecionou 30 deles para compor o elenco do time que jogaria pela primeira vez a Taça.
            Dentre os muitos responsáveis pela montagem do elenco do Gogó estão o diretor Diego e o técnico Vinícius, também conhecido como Jiló por seus amigos e jogadores. O elenco de diretores e comissão técnica também é grande: Daniel, Eron, Juninho, Willian, Marcelo, Matheus, Marcos Vinicius e Guinho. Todos acreditaram juntos e começaram a realizar o sonho de ver o Gogó da Ema representado em campo naquele domingo. Jogando de camisas brancas e calções azuis, os meninos do Gogó lembram muito as estrelas do Tottenham, da Inglaterra. Por ironia do destino, o Tottenham chegaria dias depois à sua primeira final da Liga dos Campeões da Europa. Ainda sem saber, o Gogó iria trilhar um caminho muito parecido ao do clube inglês.
            Na estreia, o gol demorou a sair por culpa do goleiro adversário. O volume de jogo do Gogó seria premiado depois de um potente chute do seu camisa 10: Ronald. Mas o empate do Parque São Vicente, ainda no fim do primeiro tempo, deixaria um gosto amargo para o intervalo de jogo. No segundo tempo, o volume aumentou ainda mais e o Gogó acabaria premiado com um gol do lateral-esquerdo Yuri, garantindo os primeiros pontos na competição. Quatro semanas depois, o Gogó decidia a classificação do grupo contra o Complexo do Paraíso. Como no primeiro jogo, o meia Ronald abriu o placar ainda no primeiro tempo. Sabendo suportar a pressão do Complexo do Paraíso, o Gogó da Ema sairia vencedor da partida por 1 a 0 e garantiria, assim, a sua classificação para a segunda fase.
            A classificação para o mata-mata da Taça das Favelas era o primeiro prêmio para os idealizadores do projeto. Com o tempo, o trabalho foi conquistando frutos apesar do campo no bairro de Bom Pastor não oferecer as melhores condições. Diego faz questão de frisar que, durante boa parte dos treinos para a Taça, o Gogó da Ema treinava apenas com duas bolas, além de ter dificuldades com outros inúmeros materiais. Mas a força de vontade e o envolvimento de todos foram a cura para todos os problemas. Com os 30 jogadores inscritos e brigando diariamente pelas vagas no time, os treinos melhoraram consideravelmente. Diego ainda faz questão de agradecer a dois amigos: o preparador físico Leozinho e o Professor Júnior, da Portuguesa do Rio. Segundo ele, “ os dois sempre ensinam a fazer algo de diferente com os jogadores na parte física e tática”.
           

O Gogó estreou na segunda fase da Taça das Favelas vencendo a boa equipe do Pedreira de Vassouras. Na fase seguinte, já garantidos entre os 16 melhores times da competição, os meninos do Gogó golearam o Tijuquinha por 4 a 1, com dois gols de Júlio Henrique e outros dois de Ronald, que já tomaria a frente na lista dos artilheiros do torneio. A classificação para as quartas de final veio acompanhada de um dos grandes jogos desta edição da Taça: em um jogo disputadíssimo, o Gogó teve de superar uma expulsão no início da segunda etapa e uma enorme pressão dos meninos do Parque Ipanema. Novamente Ronald seria o fator decisivo. Com um jogador a menos em campo, as jogadas mais perigosas do Gogó saíam dos pés do seu camisa 10 que, literalmente, chamou a responsabilidade para si. Ao sofrer uma falta na entrada da área, o próprio Ronald pegou a bola e, com a perna esquerda, encontrou as redes, levando as arquibancadas do Campo do Realengo à loucura e o Gogó da Ema até as semifinais.
            Nas semis, como não poderia ser diferente, um outro jogo para tirar o fôlego dos presentes. E esse começou muito antes do apito inicial. Enquanto o Corte Oito e o Complexo de Acari decidiam a primeira finalista do feminino, o Campo foi dominado pela torcida do Gogó. Vários ônibus abarrotados chegaram a Realengo e abalaram as estruturas do local. Aos gritos de “meu Deus do céu, o meu 10 é melhor que o Lionel”, o Gogó entrou em campo confiando no seu artilheiro e craque, mas também no seu já reconhecido jogo de equipe, o que levou o técnico Vinícius a ser muito elogiado durante a competição. Em campo, mais uma vez Ronald abriria o placar. Ainda comemorando o primeiro gol do jogo, os jogadores foram surpreendidos pela saída rápida do Engenho Velho de Itaboraí e sofreram o empate segundos depois. Com as arquibancadas ensandecidas, o time do Gogó teve de se recuperar do gol sofrido de forma inesperada e ir pra cima. O resultado viria no segundo tempo: com gols de Gabriel e Matheus, o time de Belford Roxo carimbou sua vaga nas finais da Taça.
            Para Diego, o significado de alcançar a grande final é gigantesco: “isso mostra que podemos fazer a diferença em nossa comunidade. Não é só de notícias ruins que vive o Gogó da Ema”. Segundo Diego, a Taça das Favelas vai ajudar a mudar o pensamento de vários jovens no Bairro Bom Pastor, em Belford Roxo: “A Taça pode transformar o que era ruim em algo maravilhoso. Muitos reclamam que não tem oportunidades e acabam indo para outro lado da vida, mas a Taça veio para suprir isto e oferecer um outro caminho a esses meninos”. Sempre agradecendo a Deus e aos envolvidos no projeto, o Gogó da Ema vai em busca de um sonho dentro de um sonho já realizado: levantar o troféu de campeão.

 

 

*Voluntários sob supervisão das Assessoria de Comunicação da Central Única das Favelas.





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